O recrutador perguntou quanto eu ganho hoje. O que eu respondo?
Responda com honestidade, mas mude o foco para a sua pretensão: “Hoje estou em R$ 7.200 brutos CLT, com plano de saúde e PLR. Para esta vaga, pelo escopo e pelo que pesquisei de mercado, minha pretensão é de R$ 9.000 a R$ 9.800.” O salário atual é o seu passado. A proposta deve se basear no valor da vaga, não em um percentual em cima do que você ganha.

Como essa pergunta aparece no processo seletivo?
Ela quase nunca vem sozinha e quase sempre chega cedo, antes de você saber quanto a vaga paga. As versões mais comuns:
- Na triagem por telefone: “Pra eu alinhar com o gestor, quanto você ganha hoje?”
- No WhatsApp: “Oi, tudo bem? Pra seguir com seu perfil, me passa seu salário atual e sua pretensão?”
- No formulário da Gupy, da Solides ou de outra plataforma: um campo “Último salário” obrigatório.
- Na entrevista com o RH: “Qual é a sua remuneração hoje, com benefícios?”
Muitas vezes o recrutador pergunta só para preencher um cadastro. O problema está no que acontece depois com esse número.
Por que o salário atual vira teto?
Porque ele passa a ser a âncora da proposta. Quando o RH sabe que você ganha R$ 7.200, a conversa deixa de ser “quanto vale esta vaga” e passa a ser “quanto a mais a gente precisa dar para ele trocar”. Se a faixa aprovada vai até R$ 10.500, a proposta tende a sair perto de R$ 8.000, porque isso já parece um bom aumento para você.
Quem mais perde com isso é quem já está mal pago: quem está abaixo do mercado, quem quer mudar de área ou quem vem de uma empresa pequena. O salário antigo acompanha você de emprego em emprego.
Evite
Falar o salário atual e parar aí. Sem uma pretensão logo em seguida, o recrutador fica com um único número na mão, e é o seu número mais baixo.
Posso me recusar a responder?
No Brasil não existe lei que proíba a empresa de perguntar seu salário atual. Então a pergunta é legítima, e se recusar de forma seca costuma pegar mal. Você pode, sim, escolher como responder: com o pacote completo, com uma faixa ou redirecionando para a pretensão.
O que você não deve fazer é mentir. Algumas empresas pedem holerite na admissão, e o mercado é pequeno: uma checagem de referência derruba um número inventado. Inflar o salário atual é o jeito mais rápido de queimar o filme numa vaga que já estava ganha.
Como responder sem se prender ao número?
Siga três passos: informe o pacote inteiro, dê a pretensão na mesma frase e explique que a pretensão se baseia na vaga.
Exemplo — Na triagem por telefone
“Hoje estou em R$ 7.200 brutos, CLT, com plano de saúde, VR de R$ 900 e PLR de cerca de um salário por ano. Para esta vaga, que tem gestão de fornecedores e um escopo maior, minha pretensão fica entre R$ 9.000 e R$ 9.800.”
Exemplo — Quando você prefere não abrir o valor exato
“Prefiro focar no que faz sentido para esta posição. Pelo escopo e pelas referências de mercado, minha pretensão é de R$ 9.000 a R$ 9.800. Vocês têm uma faixa definida para a vaga?”
Se o recrutador insistir, informe o valor. Fugir duas vezes da mesma pergunta passa desconforto, não estratégia.
Modelo — WhatsApp ou LinkedIn
Oi, Carla! Tudo bem? Hoje estou em R$ 7.200 brutos CLT,
com plano de saúde, VR e PLR. Para essa vaga de coordenação,
minha pretensão é de R$ 9.000 a R$ 9.800 brutos, também CLT.
Fico à disposição para conversar sobre o pacote completo.
Se você vem de uma realidade diferente, deixe isso claro também. Quem é PJ hoje deve informar o valor da nota e lembrar que ele não inclui 13º, férias nem FGTS. Veja a conta em CLT ou PJ, qual compensa.
E se eu já falei meu salário sem pensar?
Ainda dá para corrigir. Mude o ponto de referência na mesma conversa ou no próximo contato, de forma tranquila:
Exemplo — Reposicionando depois
“Só para alinhar: o valor que passei é o que recebo hoje, numa função com escopo menor. Para esta vaga, minha pretensão é de R$ 9.000 a R$ 9.800, alinhada ao mercado para coordenação em São Paulo.”
Se a proposta vier como “20% em cima do que você ganha”, responda pela vaga, não pelo aumento: “Agradeço, mas estou avaliando pelo valor da posição, que no mercado fica nessa faixa.” Para montar esse contra-argumento, use como negociar salário e, se o valor ficar muito aquém, a página sobre proposta abaixo do mercado.
Salário atual e pretensão, qual a diferença?
| Salário atual | Pretensão salarial | |
|---|---|---|
| O que é | Um fato sobre o seu emprego de hoje | Quanto você quer receber na nova vaga |
| Em que se baseia | O que a empresa atual paga | Mercado, escopo da vaga e sua experiência |
| Como informar | Pacote completo: salário bruto, regime e benefícios | Faixa com o piso no mínimo que você aceita |
| Risco | Virar teto da proposta | Pedir abaixo por medo |
Para calcular a pretensão, siga pretensão salarial: o que responder.
Perguntas frequentes
É proibido perguntar o salário atual no Brasil?
Não. Diferente de alguns estados dos Estados Unidos, o Brasil não tem lei que proíba a pergunta. Você pode escolher como responder, mas não deve mentir.
Posso informar o salário líquido?
Não. No Brasil, a conversa sobre salário é sempre no bruto. Informar o líquido faz você parecer mais barato do que é, porque os descontos de INSS e Imposto de Renda ficam de fora da conta.
O recrutador pode pedir meu holerite?
Pode pedir, principalmente na admissão. Por isso, informe sempre o valor real. Se não quiser mostrar o documento antes da proposta, diga com educação que apresenta na contratação.
E se eu ganho bem abaixo do mercado?
Diga o valor real e explique o contexto em uma frase: empresa pequena, área diferente ou salário congelado. Em seguida, ancore na pretensão de mercado. É justamente o caso em que você não pode deixar o salário antigo definir a proposta.
Coloque em prática
Aplique as dicas deste artigo com a ferramenta gratuita da Epimoni: Preparar minha negociação salarial